Andres Calamaro é um cantor pop/rock argentino bastante conhecido no seu país e muitos discos editados desde 1980, mas cuja carreira não me parece muito interessante.
Em 2006, no entanto, resolveu editar um disco de versões de clássicos da música argentina (tangos e similares). As músicas, como não podia deixar de ser, são muito boas, os músicos (parece que o andres só canta) também, e a voz rouca do senhor dá um ambiente de bar refundido na noite de Buenos Aires.
Muito bom…

Jacques Brel

24 Julho, 2008

Sou louco por fado. Associo-lhe a noite, o fatalismo, a paixão, o desespero, a poesia, o inebriamento, a saudade. Não sendo só isto, o fado é muito disto. Nesta perspectiva Jacques Brel é um fadista. Boémio e mulherengo mas solitário, revolucionário e inconformado, escrevia e compunha todas as suas canções. Cantava-as, tocava-as e representava-as pelos cabarés de Paris com a intensidade de quem realmente as sentia e vivia. As suas letras celebram emoções e criticam costumes e o seu tom ia do doce e melancólico ao angustiado e destrutivo.

Influenciou várias gerações de músicos como Bob Dylan, David Bowie ou Leonard Cohen que o cantaram. Deu deu à música francesa uma projecção internacional que não tinha anteriormente.

Foi ainda actor durante alguns anos mas cansado do mundo do show-business europeu, cada vez mais dominado exclusivamente pela lógica de mercado, decidiu comprar um veleiro e nele empreender uma volta ao mundo. Foi-lhe durante esta aventura diagnosticado um tumor nos pulmões, doença que o viria a matar aos 49 anos. Está enterrado nas Ilhas Marquesas, na Polinésia Francesa, ao lado do pintor Paul Gauguin.

Deixo-vos três actuações ao vivo de Brel que ninguém devia passar por este mundo sem ver, ouvir e compreender. Amsterdam, também cantado numa excelente versão inglesa por David Bowie, é como um quadro de decadência e promiscuidade pintado a cores quentes e vivas. A interpretação é arrebatada e o suor corre-lhe pelo rosto enquanto por trás o acordeão solta pungentes acordes. Fica a parte final da letra.

Dans le port d’Amsterdam Y a des marins qui boivent
Et qui boivent et reboivent et qui reboivent encore
Ils boivent à la santé des putains d’Amsterdam
De Hambourg ou d’ailleurs, enfin ils boivent aux dames
Qui leur donnent leur joli corps, qui leur donnent leur vertu
Pour une pièce en or et quand ils ont bien bu
Se plantent le nez au ciel, se mouchent dans les étoiles
Et ils pissent comme je pleure sur les femmes infidèles

Ne Me Quitte Pas é segundo as palavras de Brel não uma canção de amor mas um hino à cobardia dos homens. Foi escrito para a sua amante Zizou que esperando um filho seu, abortou devido à recusa de Brel em assumir a paternidade. A segunda estrofe é extraordinária e deveria ser dita a alguém pelo menos uma vez na vida.

Moi je t’offrirai des perles de pluie
venues de pays où il ne pleut pas.
Je creuserai la terre, jusqu’apres ma mort,
pour couvrir ton corps d’or et de lumière.
Je ferai un domaine où l’amour sera roi,
où l’amour sera loi, où tu seras reine.
Ne me quitte pas, ne me quitte pas,
ne me quitte pas, ne me quitte pas.

A melhor versão não está disponível para embedding em blogues mas pode ser encontrada aqui. Para compartilhar convosco fica esta que também não está mal…

La Valse a Mille Temps é doce e cíclica, muito parisiense e começa num ritmo de canção de embalar crescendo depois em intensidade até um completo frenesi final. Existirão pessoas que não pensam tão depressa como este homem fala.